Saúde às Claras

O remédio mais caro da base tinha o ensaio decisivo reprovado — e a Anvisa acabou de cancelar o registro

Elevidys custa R$ 13,3 milhões por dose, o preço mais alto de todo o acervo da Anvisa. O estudo de fase 3 que deveria confirmar sua eficácia falhou no desfecho principal — e em agosto a Roche pediu, e obteve, o cancelamento do registro no Brasil.

Publicado em 02 de setembro de 2026

Elevidys é o medicamento mais caro de toda a base da Anvisa: R$ 13.274.524,58 por dose única, terapia gênica para distrofia muscular de Duchenne. Para um remédio nesse preço, o Saúde às Claras mediu quanto a ciência já publicou sobre a substância — delandistrogeno moxeparvoveque soma 57 artigos no PubMed, 3 deles ensaios clínicos controlados. Não é o volume que chama atenção: é o resultado do principal desses ensaios.

O EMBARK, estudo de fase 3 desenhado para confirmar o benefício clínico, falhou no desfecho principal. A escala que mede função motora (NSAA) mostrou diferença de 0,65 ponto entre quem tomou o remédio e quem tomou placebo — estatisticamente sem significância (p=0,24). A aprovação nos Estados Unidos, em 2023, veio por outra via: a FDA aceitou um biomarcador substituto (nível de expressão da proteína micro-distrofina) no lugar do desfecho clínico. Em 2024, mesmo com o EMBARK já reprovado, a agência ampliou a indicação — e fez isso depois que Peter Marks, então diretor do setor de terapias biológicas da FDA, anulou a recomendação de rejeição de equipes técnicas de revisão, nas duas rodadas.

Em uso comercial — fora de ensaio clínico, já no mercado — dois pacientes morreram de falência hepática aguda, em março e junho de 2025. A FDA respondeu com tarja preta nova e restringiu a indicação a pacientes ainda capazes de andar.

No Brasil, o desfecho chegou em agosto: em 21/08/2026, a Anvisa cancelou o registro do Elevidys — a pedido da própria Roche, que assumiu não ter dados suficientes para manter o registro condicional concedido em dezembro de 2024. A distribuição já vinha suspensa desde julho de 2025 por segurança. A base de dados abertos que alimenta este site ainda não refletia o cancelamento no fechamento desta reportagem — a atualização é mensal e deve corrigir na próxima competência; até lá, a página deste medicamento no Saúde às Claras pode mostrar situação "ativo" por um mês além da realidade.

O episódio brasileiro já vinha de atrito antes do cancelamento. A Conitec, que decide o que entra no SUS, emitiu parecer preliminar contrário à incorporação em 2025, com impacto orçamentário estimado em R$ 9,3 bilhões em cinco anos para cerca de 4.100 crianças — a decisão final do plenário não foi encontrada nesta apuração. Enquanto isso, uma reclamação no STF (Rcl 68709) chegou a reunir 55 ações judiciais pedindo o remédio pelo SUS ou por planos de saúde, 13 delas com liminar concedida — número de 2024, que tende a ter crescido desde então.

Nenhum desses números, sozinho, decide se o Elevidys funciona: doença rara é o cenário em que agências aceitam desenho de estudo mais frouxo, e substituto biológico no lugar de desfecho clínico é rota prevista, não atalho irregular. O que a linha do tempo mostra é outra coisa — o ensaio decisivo falhou, a aprovação avançou por decisão de um único diretor contra sua própria equipe técnica, mortes apareceram fora do ensaio, e a fabricante pediu para tirar o produto do mercado brasileiro sete meses depois de ampliar a indicação nos Estados Unidos. Ver sobre os dados para como este site mede evidência científica e por que contagem de artigo não é veredito de eficácia.

Fontes

ELEVIDYS

PRODUTOS ROCHE QUÍMICOS E FARMACÊUTICOS S.A.

Situação
Ativo
Regime
Registro
Número de registro
101000676 ver bula na Anvisa ↗
Categoria regulatória
Produto de terapia avançada
Data de finalização do processo
02 de dezembro de 2024
Vencimento do registro
01 de dezembro de 2029
Princípios ativos
Classe terapêutica
Não informada

Preço (CMED)

Preço de fábrica sem impostos e faixa de preço ao consumidor entre as alíquotas de ICMS — o valor real depende do estado. Ver sobre os dados.

  • 1,3 X 10E13 GV/ML SOL INFUS CT 10 A 70 FR PLAS TRANS X 10 ML

    PF sem impostos: R$ 13.274.524,58

Literatura científica

Estudos sobre a substância delandistrogeno moxeparvoveque, não sobre este produto em particular.

Artigos publicados
57
Ensaios clínicos randomizados
3
Revisões sistemáticas e meta-análises
2
Ensaios de fase 3
2
Estudos em humanos nos últimos 5 anos
31

Busca no PubMed pelo termo delandistrogene moxeparvovec, a denominação internacional correspondente. Consultado em 27 de agosto de 2026.

Estes números dizem quanto se pesquisou sobre a substância e sob que desenho de estudo — não se os resultados foram favoráveis. Um medicamento para doença rara costuma ter poucos ensaios randomizados porque não há pacientes suficientes para randomizar, e não por falta de rigor: nesses casos as agências reguladoras aceitam estudos de braço único.